Veja a matéria publicada pela Repórter Brasil
Incêndio em Alter foi para ‘vender terreno’ em área com ‘policial por trás’, diz prefeito de Santarém em áudio
01/12/19
Em gravação enviada ao governador do Pará, Helder Barbalho, prefeito
Nélio Aguiar pede ajuda dos bombeiros e da Polícia Militar para combater o
fogo, já que ‘o povo lá anda armado’. Áudio coloca em xeque ação da Polícia
Civil que prendeu quatro brigadistas
Em áudio
inédito obtido pela Repórter Brasil,
o prefeito de Santarém, Nélio Aguiar (DEM), afirma ao governador do Pará,
Helder Barbalho (MDB), que o incêndio em Alter do Chão foi causado por “gente
tocando fogo para depois fazer loteamento, vender terreno” e que essas pessoas
contam com o apoio de policiais.
A
gravação indica que Aguiar e Barbalho tinham ciência de que o local atingido,
na região do Lago Verde conhecida como Capadócia, é “uma área de invasores”. No
áudio, Aguiar diz que “tem policial por trás, o povo lá anda armado” e pede a
intervenção não só do Corpo de Bombeiros, mas também da Polícia Militar para
“identificar esses criminosos”. O contato teria sido feito no dia em que um
incêndio de grandes proporções atingiu a Área de Proteção Ambiental de Alter
A fala do
prefeito coloca em xeque o inquérito da Polícia Civil, que prendeu na última
terça-feira (26) quatro voluntários da Brigada de Incêndio Florestal de Alter
do Chão, acusados de terem iniciado o fogo. Além disso, o áudio confirma a
linha de investigação do Ministério Público Federal, que aponta que o incêndio
em Alter do Chão foi provocado por grileiros interessados em vender lotes – e
não pelos brigadistas
Procurado
pela Repórter Brasil neste
domingo (1º), Aguiar confirma o envio do áudio a Barbalho, e diz que “o governo
respondeu prontamente, ainda pela manhã do domingo [15 de setembro], quando
estava ocorrendo o incêndio. Chegou Polícia Militar, chegou Corpo de Bombeiros
e à tarde chegaram soldados do Exército”. Ele, no entanto, faz a ressalva de
que, como prefeito, não pode fazer prejulgamento e nem dizer quem é culpado
[pelo incêndio], já que isso é um papel da polícia ou da Justiça.
“Não afirmei que alguém teria tocado fogo no áudio que mandei para o
governador, falei que é uma área de conflito desde 2015 e que tem uma pessoa
foragida. Uma área perigosa, uma área de conflito e que a suspeita do incêndio
era criminoso. Eu não sou polícia, sou prefeito, não tenho poder de
investigação, nem de mandar na polícia”, afirmou.
Quando questionado sobre a prisão dos brigadistas, Aguiar afirma que como
prefeito não poderia interferir em um inquérito da Polícia, destacando que a
ordem de prisão partiu do Judiciário. “Executivo não tem que interferir no
Judiciário”.
Aguiar também afirmou que foi um dos primeiros a chegar ao local das queimadas.
“Fui o primeiro a chegar na área, encontrei os brigadistas, estavam só eles,
umas 10 pessoas. E fomos lá ver se estavam precisando de ajuda, e acionei todo
mundo para ajudá-los, sempre mantendo informado o governador, mandando áudios
para ele”. O prefeito diz que também pediu que a Polícia Federal e a Polícia
Civil investigassem a grilagem de terras e a especulação imobiliária em Alter
do Chão.
Após a publicação da reportagem, o governo do Estado do Pará confirmou
que recebeu o áudio de Aguiar. “Assim que recebeu a solicitação [do prefeito],
o governador Helder Barbalho determinou que o Corpo de Bombeiros e a Polícia
Militar dessem suporte à operação de combate ao incêndio – o que foi feito.
Todos os recursos foram disponibilizados, inclusive aeronave de combate a
incêndios florestais da PM”, diz a nota, destacando que a troca do delegado
ocorreu porque o atual é especializado em crimes ambientais, o que não ocorria
com o anterior. “É fundamental que o Estado chegue aos autores, que devem pagar
pelos crimes cometidos”, ressalta.
A prisão dos brigadistas gerou reações de organizações da sociedade civil
e também de autoridades. Dois dias após a prisão, o governador do Estado trocou
o delegado da Polícia Civil responsável pelo caso e o Ministério Público pediu
acesso ao inquérito.
Na quinta-feira (28), os quatro brigadistas foram soltos a pedido do
mesmo juiz que havia autorizado a prisão, Alexandre Rizzi. No passado, Rizzi atuou como advogado de uma madeireira da família e, em
1994, chegou a criticar ação do Greenpeace na região.

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