IBGE - Pela
primeira vez, o Censo Agropecuário investigou a cor ou raça dos mais de 5
milhões de produtores agrícolas do país. Em 2017, 52,8% deles eram pretos ou
pardos e 45,4% eram brancos, numa distribuição semelhante à da população do
país, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD
Contínua).
Outra
semelhança é na desigualdade. Neste caso, ela se reflete na distribuição de
área dos estabelecimentos agropecuários. Entre os produtores que dirigem
propriedades com até cinco hectares, a população preta ou parda é maioria, com
65% contra 32,4% de brancos.
Conforme aumenta
a área de produção, a proporção vai se invertendo: entre cinco e 50 hectares, a
população branca é maioria, com 52,4% contra 46,3% de pretos ou pardos. Nos
estabelecimentos agropecuários de 50 a mil hectares, 57,1% são dirigidos por
produtores brancos, contra 41,5% de pretos ou pardos.
Nas
grandes áreas, a disparidade se intensifica. Em estabelecimentos de mil a 10
mil hectares, há mais que o triplo de brancos (74,7%) face aos pretos ou pardos
(23,8%). Na última faixa estabelecida pela pesquisa, de mais de 10 mil
hectares, a proporção é de 79% contra 18,9%.
Comunidades quilombolas: resistência do laço entre
negros e a terra
A relação
do negro com a terra vai além do mero cultivo agrícola ou pecuário para
sustento próprio. As comunidades quilombolas são grupos que têm o território
como base não só econômica, mas de produção social e cultural de sua
coletividade. São reconhecidos na Constituição de 1988 como portadores de
direitos territoriais coletivos e fazem parte do conjunto dos povos e
comunidades tradicionais. Os registros são regulamentados pela Fundação
Palmares.
A
Comunidade Remanescente de Quilombo do Ginete, em Barra da Estiva (BA), na
Chapada Diamantina, é um desses lugares onde terra, cultura e economia convivem
em harmonia. Por meio do Programa Brasil Quilombola, a comunidade conseguiu o
reconhecimento, obtendo em 2016 o certificado oficial.
No local,
dezenas de descendentes de africanos escravizados cultivam principalmente café,
mas também banana. Por conta da declividade e da altitude do terreno, o
Quilombo do Ginete ainda não conseguiu desenvolver outras culturas. Mas, com as
técnicas tradicionais ensinadas pelas gerações anteriores, os quilombolas
processam, torram e moem o próprio café que cultivam, para posterior
comercialização.
É uma
modalidade de sustento que vai além do dinheiro. “A gente sabe a importância de
estar aqui. A gente se sente seguro de estar nesta terra. Sobreviver da
agricultura simboliza a união e a tradição familiar. É uma história que a gente
resguarda”, conta Gilmar Pereira Alves, secretário da associação e coordenador
geral da comunidade.
Gilmar
também é neto do fundador do território, um agricultor descendente de africanos
escravizados que, há 40 anos, saiu da área onde fica hoje a Comunidade
Quilombola de Mulungu, no município de Boninal (BA), também na Chapada
Diamantina. Fugindo da seca e da fome para tentar a vida em um pedacinho de
chão para ele e sua família, se estabeleceu no Ginete.
Hoje,
filhos, netos e bisnetos cultivam seu pedaço de terra, sem conflito. “Ele
conseguiu comprar a terra e assentar todo mundo da família. Atualmente, seria
difícil distribuir uma área e colocar tanta gente para produzir”, afirma
Gilmar. Fonte IBGE

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